segunda-feira, 22 de novembro de 2010

ALGUNS DADOS SOBRE PERDA AUDITIVA INDUZIDA POR EXPOSIÇÃO A PRODUTOS QUIMICOS OU HIPOACUSIA ATÓXICA

A perda auditiva é um problema mundial e que vem sendo debatido amplamente quanto aos aspectos de exposição ocupacional por ruído. Os profissionais de segurança e medicina do trabalho conhecem facilmente a relação, ou nexo casual, entre a exposição ao ruído e a perda auditiva, mas pouco se debate sobre a perda auditiva derivada da exposição a produtos químicos no Brasil. Este desconhecimento causa milhares de perdas auditivas que não se encontram relacionadas ao agente ruído, mas que poderiam ser evitadas, bastando para tanto que o tema fosse mais amplamente conhecido por técnicos e engenheiros de segurança, enfermeiros e médicos do trabalho.

Tanto trabalhadores em indústrias quanto trabalhadores rurais estão expostos, pois os agentes químicos responsáveis por esta forma de perda auditiva estão disseminados em áreas das mais variadas. A proteção destes trabalhadores quanto aos agentes químicos causadores da hipoacusia ototóxica, contudo, nem sempre se dá, principalmente em relação àqueles que possuem a capacidade de entrar no organismo pela via dérmica.

Como agentes químicos ototóxicos temos alguns gases asfixiantes, metais pesados e solventes, como se vê à Tabela 1. Já a tabela 2 apresenta os agentes químicos ototóxicos que apresentam a capacidade de entrar no organismo pela via dérmica.



Tabela 1: PRODUTOS QUÍMICOS OTOTÓXICOS





Família químicaAgente ototóxicoUsos principais
ÁlcoolsÁlcool ButílicoSolvente para extração de óleos, drogas e produtos cosméticos para unhas. Ingrediente de perfumes e aromatizantes; produção de acetato de butila, butil glicol éter e dibutil halato.
Gases asfixiantesMonóxido de CarbonoCombustão, processos industriais, como alto-forno, coqueira, emissões veiculares, caldeiras, carvoarias, oficinas, garagens, operações de soldagem.
Gás SulfídricoGalerias de esgoto, poços de petróleo, refino de petróleo (aparece nos processos de eliminação de compostos sulfurosos, no craqueamento e na destilação): é um dos componentes do gás natural; fabricação de polpa e celulose; fabricação de rayon e seda. carbonização do carvão.
Metais pesadosArsênicoProdução de vidros, vitrificação de cerâmicas; preservativo de madeiras e couros. fundição de cobre, zinco e chumbo; tintas de navios (antiencrustrante); herbicidas; tintas e corantes; mineiração do ouro; alguns processos de soldagem.
CádmioLigas metálicas; eletrodos de solda; pigmentos; estabilizante de plásticos; baterias; células fotoelétricas; banhos de galvanoplastica; cinzas de incineradores; chapas galvanizadas; fungicida e inseticida (Cloreto de Cádmio).
ChumboFundições, baterias para veículos, sucatas, ferros-velhos, tintas bases anticorrosivas, aditivo para gasolina de aviação, solda a estanho (contém chumbo), ligas de latão, bronze e aço.
ManganésLigas de aço, ferro, silício, cobre, zinco, estanho, alumínio e chumbo; eletrôdos para solda; pilhas secas, baterias; fertilizantes, fungicidas (Maneb), rações, produtos farmacêuticos; esmalte porcelanizado; aditivo para óleos combustíveis.
MercúrioCélulas de produção de cloro-soda, fabricação de instrumentos hospitalares; garimpo; alguns agrotóxicos.
Solventes orgânicosEstirenoProdução de polímeros (poliestireno). Fabricação de plásticos e borrachas diversas.
HexanoThinners, solvente de cola de sapateiro, gasolina e de borracha; usado na extração de óleos vegetais; solvente na laminação de polietileno e polipropileno; produção de pneus.
Tolueno e XilenoThinners, águarraz, diluente de tintas e vernizes, solvente de cola de sapateiro e de borracha, removedores; refinarias de petróleo.
Dissulfeto de CarbonoFabricação de celofane e de rayon. solvente para ceras, óleos, lacas e resinas; vulcanização a frio de borrachas; componente de alguns inseticidas, parasiticidas e herbicidas.
Solvente organocloradoTricloroetilenoLavagem a seco, desengraxante, removedor de tintas, sintese de plásticos, produção de praguicidas, ceras, borrachas, resinas, alcatrão, tintas, vernizes, cola de PVC e produção de ácido cloroacético.




 Tabela 2: Produtos químicos ototóxicos e derivados que possuam como via de penetração a pele.




Agente ototóxico
Via de entrada: pele
Derivados
Fonte e ano da publicação
Álcool ButílicoAzevedo, 2003.
CádmioFungicida à base de Cloreto de Cádmio. Cardoso & Chasin, 2001.
ChumboChumbo Tetraetila, Chumbo Tetrametila, Naftenato de Chumbo, Nitrato de Chumbo, Ogam 1996; Paoliello & Chasin, 2001.
ManganêsFungicida Maneb (Etileno bis-ditiocarbamato de manganês); Tricarbonil de Manganês (aditivo de gasolina). Martins & Lima, 2001.
Mercúrio
Acetato de Fenil-Mercúrio, Borato de Fenil-Mercúrio, Cloreto de Fenil-Mercúrio, Nitrato de Fenil-Mercúrio, Tiomersal, Merthiolate, Picrato de Butesina (medicamentos). Abavit, Aretan, Ceresam, Clerit, Panagene, Samesan, Tiltex, Uspulum (praguicidas), Metil-Mercúrio. Azevedo, 2003.
EstirenoPoliestireno, resinas acrilonitrila-estireno. Oga, 1996.
HexanoOga, 1996.
Tolueno e XilenoNitrotolueno, dinitrotolueno, trinitrolueno. Azevedo, 2003; Oga, 1996.
Dissulfeto de CarbonoAzevedo, 2003; Oga, 1996.
TricloroetilenoOga, 1996.
DESCRIÇÃO DA DOENÇA
Hipoacusia ototóxica ou perda da audição ototóxica é a perda auditiva do tipo neurossensorial, induzida por substâncias químicas de origem endógena ou exôgena. O efeito ototóxico pode alcançar, com frequência, o aparelho do equillíbrio, quando se diz que há manifestações vestibulares (Ministério da Saúde, 2001).

Quanto aos fatores endógenos, temos a ação de toxinas bacterianas, nefropatias e diabetes como indutores de perda auditiva. Já como fatores exógenos, temos as substâncias acima relatadas, mas também a ação de fume e bebidas alcoólicas (Ministério da Saúde, 2001).
TOXICODINÂMICA

Segundo o Ministério da Saúde do Brasil (2001) a toxicodinâmica (ou os sintomas e sinais clínicos) da lesão tóxica da audição e do aparelho do equilíbrio caracteriza-se por:
  • tinido (geralmente aparecendo como o primeiro sintoma);
  • perda auditiva: surdez neurossensorial. Inicialmente a perda é para tons agudos, mas posteriormente há estreitamento do campo auditivo, evoluindo das frequências altas para as médias e inferiores. Manifesta-se sempre de forma bilateral;
  • vertigem posicional, associada a náuseas;
  • distúrbios do equilíbrio, com vertigem e instabilidade de marcha (deambulação);
  • osciloscopia, isto é, uma fraqueza de fixação devida a um distúrbio do reflexo vestibulococlear.
ANÁLISE DE ALGUNS AGENTES OTOTÓXICOS
Metais Pesados
Chumbo: Existem diversos estudos acerca dos efeitos da intoxicação pelo chumbo no organismo humano, os quais demonstram que múltiplos órgãos são afetados por este metal pesado, mas aqueles direcionados sobre os efeitos do chumbo no sistema auditivo são escassos. Estudos considerando a exposição simultânia ao chumbo e outros agentes, como o ruído, por exemplo, são praticamente inexistentes (Jacob et al,2002; Alvarenga et al, 2003).
O uso industrial do chumbo é vasto como se verifica à Tabela 1, e normamente as condições de trabalho presentes num grande número de indústrias brasileiras expôem o trabalhador a elevadas concentrações de chumbo, por poeira em suspensão. Algumas das indústrias também apresentam uma ação poluidora na vizinhança, a exemplo do que ocorreu em Bauru/SP, pela presença de uma fábrica de baterias veiculares, ao contaminar aproximadamente 800 pessoas, dentre estas, 262 crianças (Aceituno, 2002; Macêdo, 2002). Estudos publicados pela Unicamp também dão conta da contaminação de 335 crianças na região do Vale do Ribeira, mesmo já passados dez anos do fechamento de uma antiga mineradora de chumbo na divisa dos estados do Paraná e São Paulo (Jorge, 2003).

A ação ototóxica do chumbo se relaciona a danos da condução do impulso nervoso do som ao cérebro e não está associada a danos diretos à cóclea, segundo Alvarenga et al (2003).
Jacob et al (2002) indicam que as pequenas indústrias de baterias ácidas à base de chumbo são os ambientes mais comuns em nossos país. Tais empresas normalmente apresentam ambientes de trabalho improvisados e sob condições insalubres, possibilitando a fácil exposição dos operários. A emissão e a dispersão de poeiras ricas em chumbo representam a forma mais comum de exposição.

São Jacob et al (2002) que fazem uma importante revisão e apresentam alguns resultados relacionada ao ruído e ao chumbo. Alguns exemplos citados pelas autoras: Farahat et al (1997), que estudaram trabalhadores em gráficas, com perdas auditivas nas frequências entre 1, 2 e 4 kHz, mas principalmente 8 kHz. A correlação foi feita quanto maior era a concentração de chumbo no sangue dos trabalhadores avaliados; Murata et ak (1993) indicaram que há relação entre os níveis de chumbo no sangue de trabalhadores (que não apresentavam qualquer sinal clínico de intoxicação) e alterações nas vias auditivas do tronco encefálico: Araki et al (2000) confirmar estes achados, mesmo em trabalhadores com níveis de chumbo no sangue entre 30-40 µg/dl.

Tais achados evidenciam que os efeitos deletérios do chumbo não são restritos ao aparelho auditivo (cóclea), mas que também alteram o sistema nervoso do organismo humano.

Cádmio: O cádmio absorvido pelo homem concentra-se em vários órgãos, na urina e no sangue, com acúmulo no fígado, rins e ossos. Quantidades significantes e progressivas deste metal vêm sendo introduzidas no meio ambiente, estando largamente distribuído na água e no ar contaminados e apresentando um tempo de retenção nos órgãos expresso em décadas (Cardoso & Chasin, 2001).

Trabalhadores de indústrias estão sujeitos a inalar o cádmio ou retê-lo em contato com a pele. Soldadores e operadores de máquinas de solda e seus ajudantes também.

Quanto aos possíveis danos auditivos associados entre ruídos e cádmio, Abreu & Suzuki (2002) encontraram alterações nas frequências de 4000 e 6000 Hz, sobretudo na primeira. Os autores indicam uma interação entre o cádmio e o ruído, sendo que o metal pesado potencializa o efeito do ruído, acentuando a diferença de perda auditiva nessas frequências, quando comparadas ao grupo de trabalhadores exposto somente ao ruído.

Mercúrio: Conforme Almeida & Albernaz (1998), a exposição ocupacional ao mercúrio causa lesões auditivas e vestibulares, mesmo quando os tradicionais exames de laboratório (ou seja, de urina ou sangue) não demostram níveis de contaminação considerados críticos. As sequelas auditivas e vestibulares são irreversíveis.

É relevante informar que o mercúrio é um poderoso agente químico neurotóxico, conforme relata Azevedo (2003). O mercúrio cruza a barreira hematoencefálica, sendo sequestrado pelos corpos densos dos lisossomas dos neurônios. O Sistema Nervoso Central é especialmente atingido na intoxicação crônica pelo mercúrio (o mercúrio acumulado no cérebro não mais se desprende do mesmo e ali fica pelo resto da vida), sendo relatados diversos sintomas, como mudanças comportamentais (irritabilidade, irrascibilidade, melancolia, depressão, timidez, ansiedade, indecisão, dificuldade de concentração, insônia, embotamento intelectual), esclerose lateral amiotrófica, distúrbios sensoriais, ataxia, disartria e dificuldades auditivas e visuais.
SOLVENTES ORGÂNICOS
Solvente orgânico é o solvente que contém algum agente químico à base de carbono. Exemplos: querosene, thinner, águarraz, removedor, etc.

Como solventes ototóxicos, temos o estireno, o hexano, o tolueno, o xileno e o dissulfeto de carbono (Bowler & Cone, 2001).

A pesquisadora Thais Catalani Morata, do NIOSH (1999), indica que há episódios agudos de perda auditiva por exposição a solventes, como no caso dos "cheiradores" de cola de sapateiro, pelo alto teor de solventes inalados. Como se vê, o fato dos solventes entrarem pelos alvéolos e atigirem a corrente sanguínea, possibilita perda auditiva.

Como os vapores provenientes dos solventes são aerodispersóides de tamanho muito pequeno (entre 1 e 3 micrômetros), atravessam os alvéolos e atigem a corrente sanguínea. Hidro-carbonetos aromáticos, como o tolueno, xileno e estireno, fixam-se nos glóbulos vermelhos. Como são substâncias lipossolúveis, atigem com facilidade a região do cérebro, passando pela barreira hematoencefálica e chegam ao SNC (Azevedo, 2003).

Esta constatação deve servir de alerta aos profissionais de segurança do trabalho, pois a proteção respiratória coletiva (sistema de exaustão de vapores) e individual (máscaras dotadas de filtros para vapores orgânicos) estará protegendo não apenas os pulmões e a corrente sanguínea, mas tambpem o aparelho auditivo e os órgãos do equilíbrio. 

Outro fato importante é que nem sempre a substituição de um solvente por outro significa que o problema será resolvido. Por exemplo, de nada adianta substituir o tolueno pelo thinner ou pela águarraz mineral. O motivo é simples: ambos contém tolueno na composição, além de xileno.

Dissulfeto de Carbono (CS2): Chang et al (2003), estudando trabalhadores de uma fábrica de rayon, determinaram três grupos para um estudo: no primeiro, selecionaram trabalhadores que estavam expostos a Dissulfeto de Carbono (entre 1,6 e 20,1 ppm) e ruído (entre 80 e 91 dB-A); no segundo, com trabalhadores apenas expostos a baixo ruído e, no terceiro, em pessoal de escritório que não estava exposto nem a ruído e nem ao solvente. Os resultados indicam que os trabalhadores expostos ao ruído e ao solvente (primeiro grupo) tiveram perdas auditivas maiores do que o segundo grupo e expressivamente maiores do que o terceiro grupo.

Os autores citam um estudo anteior de Morata (1989), e outro de Kowalska et al. (2000), que já haviam encontrado resultados relevantes de perda auditiva em trabalhadores expostos simultaneamente a ruido e a CS2.

Estireno (C6H6CH = CH2): Conforme Bertoncello (1999), que cita Moller (1990), trabalhadores expostos a estireno apresentam alterações nas respostas corticais e distúrbios vestibulares. Esta mesma autora também menciona o trabalho de Muijser et al (1988), que sugere alterações de limiares auditivos nas frequências altas.

Tolueno (C6H5CH3): O tolueno, hidrocarboneto alifático encontrado nas "colas de sapateiro" (misturado ao hexano) é reconhecido há muito como agente quimico neurotóxico, causador de neuropatias periféricas. Estudos brasileiros sobre a exposição concomitante a ruído e tolueno na área de gráfica e impressão, apontam não apenas a perda auditiva, mas outros sintomas neurotóxicos, como tontura e náuseas (Morata, 1994).

Morata et al (1993) realizaram um estudo com 190 trabalhadores de rotogravura, divididos em quatro grupos: um sem nenhuma exposição a ruído e tolueno, outro exposto a ruído, o terceiro exposto simultaneamente a ruído e tolueno e o quarto exposto apenas a uma mistura de solventes. A análise do risco relativo apresentou os seguintes resultados: que a possibilidade de perda auditiva é quatro vezes maior no grupo exosto só a ruído, 11 vezes para o grupo de ruído mais tolueno e cinco vezes maior no grupo exposto só à mistura de solventes. Os autores concluíram que a exposição a tolueno tem efeito tóxico no sistema auditivo.

EDUCAÇÃO EM HIGIENE OCUPACIONAL
Pela quantidade e variedade química dos produtos ototóxicos, verifica-se a necessidade de formar técnicos na área de Segurança e Medicina do Trabalho que tenham um respaldo quanto ao conteúdo programático dos cursos, apresentando a análise de agentes ototóxicos. Os alunos de cursos técnicos da área costumar ficar espantados quando o tema é abordado.

Os cursos apresentam na disciplina de Higiene do Trabalho a divisão de riscos químicos, físicos e biológicos, mas dificilmente se constata que os professores de higiene apresetem uma análise da sinergia entre riscos físicos e químicos como foi demostrado neste artigo, possibilitando uma formação incompleta aos alunos.

(Por João Roberto Penna de Freitas Guimarães... Fonte: Bowler & Cone, 2001; Morata Et al, 1994; Ministério da Saúde do Brasil, 2001; PATNAIK, 2002; GABAS, 2004)





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